Introdução O relato que segue é produto da experiência de extensionistas da UFSM, pertencentes ao grupo de trabalho NEPALS, vinculado ao departamento de Educação Agrícola e Extensão Rural, os quais se depararam com o desafio de organizar alternativas de ocupação, trabalho e renda para um grupo de mulheres assentadas, abordando o artesanato com papel jornal, como alternativa para esta realidade. Estas mulheres com faixa etária que varia entre 16 e 55 anos, são moradoras de quatro assentamentos da reforma agrária localizados em uma área continua de 3.846 hectares, a leste do município de Capão do Cipó, no Estado do Rio Grande do Sul. Estes assentamentos foram constituídos em períodos diferentes.
Em todos os grupos que vieram para esta área estavam presentes um considerável numero de mulheres, quer como companheiras de futuro beneficiários da reforma agrária ou ainda como proprietárias de glebas de terras por sua participação no Movimento dos Sem Terra ( MST). Este contingente aumentou na medida em que as filhas e os filhos destes casais foram constituindo novas uniões e permanecendo na gleba. Ao longo de 20 anos de assentamento, as mulheres se constituíram em importante ferramenta para a produção e o desenvolvimento deste espaço agrário onde ainda enfrentam inúmeras dificuldades no campo social e econômico.
Desta forma, quando o autor principal era professor na escola do assentamento, levantou-se o seguinte questionamento: que alternativas de ocupação, trabalho e renda podem ser viáveis para estes grupos de mulheres assentadas?
Apresenta-se assim como objetivos deste trabalho: a) promover alternativas ocupacionais e de interatividade entre as mulheres assentadas; b) possibilitar a realização de atividade artesanal individual e em grupo; b) favorecer a adoção de praticas artesanais, como condição para a promoção de renda
Mulheres rurais e as relações com a terra
As relações das mulheres com a terra datam dos tempos mais remotos da historia da humanidade, a mulher ainda no período mesolítico (10000 – 7000 a.C), era considerada figura divina, representante da fertilidade, razão pela qual devia cultivar a terra pois, esta é aquela que alimenta, dá vida e não podia, portanto, ser cultivada por qualquer pessoa, mas, por aquela que tivesse boa relação com ela. Assim, somente a mulher tinha esta identificação, somente ela podia cultivar a terra, o que leva a crer então que as primeiras agricultoras foram as mulheres. HILÁRIO & CHACOM (1987, P.42).
Para Cordoso & Malerba (2000. p.131 ), a mulher tinha neste período um papel fundamental no que se referia a família e a sociedade. "A fêmea humana grávida era a metáfora central dos poderes da vida para povos que dependiam totalmente das forças espontâneas da terra a fim de juntar comida".
Assim, ao longo da historia humana observa-se que em determinados períodos a mulher teve elevada importância e em outros participou como coadjuvante nos processos de desenvolvimento social, mais sempre esteve ao lado do homem quando não a sua frente, sempre buscando uma vida melhor para si a seus familiares.
June Hahner ( 1981. p. 15), estudando a historia da mulher, aponta que sua história foi facilitada em grande parte pela ascensão da história social e pelo interesse crescente pelos acontecimentos locais e pela vida familiar e cotidiana das pessoas.
A autora pondera que nos tempos atuais é possível fazer uma reflexão sobre a historia da mulher, por que nos últimos tempos está ocorrendo uma grande mudança nos hábitos e costumes do cotidiano feminino, onde elas estão participando mais e discutindo com maior profundidade a ralação homem/mulher e sua condição social.
Já Rachel Soihet (1978.p.278), aponta ser válido considerar que a ascensão feminina na história também se deve a história cultural que, nas últimas décadas do século XX, apostou em novas temáticas e se interessou por grupos sociais até então excluídos do seu interesse, entre eles as mulheres.
Trabalhando ainda nesse viés, são relevantes as ponderações de Michelle Perrot (1998.p.186) são bem apropriadas quando destaca que: “[...] o silêncio sobre a história das mulheres também advém do seu efetivo mutismo nas esferas políticas, por muito tempo privilegiadas como os locais exclusivos do poder”.
Assim no tecido do tempo atual existem uma diversidade nas condições em que vivem as mulheres, mais nenhuma é tão diversificada como a das mulheres que hoje participam de movimentos que envolvem as questões de Reforma Agrária. Onde intensas mudanças tem se processado nos últimos tempos em relação ao crescimento e qualificação dos grupos femininos.
Mulheres rurais e a reforma agrária
O crescimento de grupos de mulheres assentadas e o aparecimento de lideranças têm reafirmado o aprendizado das mulheres. Assim no processo de reforma agrária a mulher tem se destacado na busca de melhor qualidade de vida para si e para seus familiares. Esta busca tem propiciado a mulher assentada a buscar cada vez mais novas alternativas que proporcionem meios para o aumento de renda e maior estabilidade financeira, no espaço rural que lhe foi destinado.
Para Foucault ( 1994, p..21 ), a mulher assentada que já foi uma mulher acampada, é uma pessoa sofrida, que já teve uma trajetória de vida, mãe, religiosa, trabalhadora, que em situações adversas assume todos os compromissos da propriedade familiar rural. A mulher assentada participa ativamente de todos os acontecimentos relativos ao seu habitat conquistado. Esta realidade se processa nestes espaços rurais pelos as mais diversos motivos entre os quais podemos destacar, fim de relação conjugal, viuvez, trabalho externo do cônjuge.
Neste sentido Borges (1997,p132 ), com base em relatos, sustenta que algumas características comuns definem o perfil destas mulheres que participam desta população nestes espaços rurais.
O processo de reforma agrária da região das missões no Rio Grande do Sul, assume grande relevância na medida em que nas ultimas duas décadas já somam-se 49 assentamentos rurais neste região e neles esta se constituindo um considerável numero de mulheres, sendo que em alguns assentamentos os grupos femininos são superiores aos dos homens, e em todos eles a atividade feminina é tida como de muita importância para a estruturação e desenvolvimento local.
Nos assentamentos do município de Capão do Cipó, esta realidade não é diferente, as mulheres estão buscando cada vez mais ocuparem espaços, participar do processo produtivo, social e econômico. Para isto buscam qualificar-se e empreender práticas diversificadas que possibilitem o aumento de renda e a agregação de valores em seus produtos.
Método de Trabalho
As oficinas foram oferecidas a dois grupos de mulheres com idades entre 16 e 55 anos, formados por moradoras dos assentamentos da reforma agrária do município de Capão do Cipó, com cerca de 20 participantes cada grupo. Estes grupos foram coordenados por um professor da Escola Estadual Chico Mendes localizada no interior do assentamento Sepé Tiarajú. As oficinas contaram também com a experiência de uma professora em artesanato da cidade de Santiago. Os encontros aconteceram as terças e quintas feiras e tinham duração de 8 horas cada um, durante três meses, totalizando 24 oficinas, sendo doze oficinas com cada grupo constituído. Em cada uma destas oficinas foi trabalhado temas através de palestras e diálogos, sobre a terapia ocupacional, a gradativa orientação sobre a preparação de material para confecção de peças artesanais com jornais e a confecção de peças artesanais com jornais, (constituição da peça, acabamento e pintura). Foram trabalhados também a importância do artesanato em jornal como fonte de renda alternativa (vendas de peças individuais, vendas coletivas, participação em feiras e eventos rurais).
Nos encontros aconteceram palestras, troca de experiências e orientações sobre a confecção de peças de artesanato, sendo que estes encontros ocorreram na Escola Estadual Chico Mendes e começavam por cerca de 9 hs e finalizavam as 17 hs; neles, cada uma das participantes trazia algum item alimentar previamente combinado onde era confeccionado um almoço partilhado, sendo que na ultima oficina foi realizada uma festa de encerramento que contou com a presença de todos os participantes e convidados.
Resultados e Discussão
Após um período de divulgação de que na Escola Chico Mendes do Assentamento Sepé Tiaraju iria acontecer oficinas de artesanato, começou uma intensa procura por informações, como, quanto custa, que tempo leva, que horas vai ser.
Esta procura resultou na organização de dois grupos, levando-se em consideração o assentamento em que moravam, sua disposição e interesse. Assim foi marcado o inicio do curso para o primeiro grupo e orientado às participantes de que material deveriam possuir para o inicio da oficina. As vagas teriam que ser limitadas devido a falta de espaço e o tempo ser limitado.
Para a constituição dos grupos de assentadas foi necessário fazer uma inscrição previa devido ao grande numero de mulheres que queriam participar das oficinas. Assim ficou estabelecido a constituição de dois grupos de 20 mulheres cada um, que serviriam posteriormente como tutoras dos grupos que se formariam posteriormente.
O desenvolvimento da atividade artesanal foi realizado com muito sucesso na medida em que foram sendo constituídos os primeiros preparativos de cada grupo no sentido de desenvolver as habilidades para preparação do material que iria constituir as peças artesanais, centro de interesse das oficinas. O interesse de cada um dos participantes no aprendizado chamou a atenção na medida em que muitas das assentadas tiveram dificuldades iniciais devido terem as mãos rústicas do trabalho na terra, que aos poucos foram sendo superados pela vontade de aprender.
Durante o desenvolvimento das oficinas, foram confeccionados diversas peças artesanais por cada um dos participantes, que embora tenham começado de forma muito rústica, aos poucos foram tomando forma e se constituindo em belas peças artesanais ecologicamente produzidas.
Assim, a proposta era montar um destacado estante neste evento onde seriam expostos todos os trabalhos e se houvessem interessados seriam então comercializadas as peças. O estande foi montado com antecedência e todas as participantes das oficinas estiveram presentes na montagem do local que aconteceu no dia anterior ao evento. No dia do acontecimento, que se realizou durante todo o dia de um sábado, elas estiveram presentes com seus familiares, (maridos, companheiros, filhos, parentes e amigos), que vieram prestigiar, há de se destacar que estas participantes bem como suas familiais moravam a mais de 15 Km do local do evento.
Durante todo o evento aconteceu uma intensa visitação ao estande de artesanato, foram vendidos cerca de 45% do estoque apresentado, a esposa do então prefeito realizou um contrato com algumas das artesãs para a confecção de peças que até os dias de hoje são fornecidas para loja desta proprietária no Capão do Cipó. Mais tarde vieram outros convites para participações em feiras como São Borja, Santiago e Itacurubi, além de participações em diversos eventos locais, que tem contato com o apoio do governo municipal. Assim, aconteceram as primeiras vendas de peças artesanais confeccionadas a partir de papel jornal.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A experiência de oficinas de artesanato em papel jornal para mulheres dos assentamentos da reforma agrária do Capão do Cipó na região missioneira do estado Rio Grande do Sul, se constitui em uma experiência impar e de uma importância jamais antes alcançada. A medida em que esta atividade proposta ganhou importância e passou a figurar como uma importante ferramenta no desenvolvimento da auto estima destas mulheres, que encontraram no trabalho artesanal forma de participação social e com isto passaram a tomar gosto por se produzirem mais, de obter renda com este trabalho que evoluiu e passou a figurar como importante fonte de renda de diversas famílias. Percebe-se, também, o fato de que muitas destas mulheres estão hoje ministrando cursos de artesanato para outros grupos dos assentamentos e fora dos assentamentos. Sendo estas ultima uma atividade que vem sendo desenvolvida a convite da secretaria de ação social do município que passou a ter nesta experiência uma de suas metas de trabalho no campo municipal.
Constitui-se assim, a partir desta experiência, alguns grupos de trabalho e grupos de convivência e com eles tem surgido novas idéias de valorização e qualificação das mulheres no Capão do Cipó.
CARDOSO,. Ciro Flamarion e MALERBA Jurandir (orgs.) “Representações: Contribuição a um debate transdiciplinar. Campinas , SP: Papiro Editora, 2000 – (Coleção texto do Tempo).
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